Esporte

O que a desistência de Naomi Osaka da Roland Garros tem a nos ensinar sobre saúde mental

2021-06-02

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O que a desistência de Naomi Osaka da Roland Garros tem a nos ensinar sobre saúde mental

Na última segunda-feira (31), Naomi Osaka – atualmente a segunda melhor jogadora de tênis do mundo, declarou que estava se aposentando da histórica competição Roland Garros, em Paris. Esta inesperada decisão pôs fim a uma polêmica que já vinha se arrastando há vários dias e nos lembra da importância de discutir sobre saúde mental no esporte e na vida.

Vamos começar com uma revisão rápida dos fatos. Naomi Osaka é uma tenista japonesa de 23 anos e uma das maiores estrelas de seu país. Considerada a segunda melhor no ranking mundial, ela também é a jogadora mais bem paga do mundo. No entanto, como nem tudo é dinheiro e fama, antes de iniciar o torneio de Roland Garros, ela anunciou em suas redes sociais que se recusaria a participar das habituais coletivas de imprensa e entrevistas pós-jogo, por acreditar que isso faz mal à sua saúde mental dos atletas.

A notícia não foi bem recebida pela organização da competição, e poucas horas depois ela foi avisada que não poderia fazer isso. Mesmo com sinais de profunda desaprovação pelos colegas e toda organização do torneio de tênis mais conhecido do mundo, ela manteve sua palavra e se recusou a ir a tradicional coletiva de imprensa após a vitória na primeira rodada, o que aumentou ainda mais a tensão geral. A jogadora foi multada em US$ 15.000 e ameaçada de ser banida do torneio para edições futuras se não comparecesse às próximas coletivas de imprensa e entrevistas. Ainda assim ela se recusou a ir.

Desde o início da polêmica, Naomi Osaka já havia deixado claro que o grande problema em participar das coletivas de imprensa é o clima de tensão que colabora para problemas de saúde mental dos atletas. Segundo a tenista, eles já convivem em um ambiente de extrema competição e muitas vezes não têm energia e vontade de responder perguntas dos jornalistas. E ela está errada?

Foi então que a jogadora decidiu pôr fim a toda esta polémica e disse abertamente que sofre de depressão, desde que aconteceu todo o bafafá na final do US Open, quando ela havia vencido contra Serena Williams em 2018.

“Atletas, homens ou mulheres, são constantemente vigiados e nunca podem cometer erros, sob pena de serem apedrejados pela mídia que busca vender sensacionalismo e não se preocupa com a saúde mental de quem está à sua frente. Esse problema, que antes afetava principalmente pessoas famosas, está começando a se tornar realidade para muitas pessoas.

A sociedade em que vivemos se tornou uma sociedade de aparência e agitação. As pessoas são julgadas com base nas fotos que possuem no feed do Instagram e no número de seguidores que possuem. A realidade agora é determinada por fotos retocadas e uma exibição da vida “perfeita”. E esta questão não atinge apenas adolescentes. Essa necessidade de mostrar que somos sempre mais bonitos, mais ricos, mais felizes, atinge todas as faixas etárias”, disse Osaka em publicação feita em seu Instagram.

Com mais de 700 mil likes, a pergunta que devemos nos fazer é: o que este fato tem a nos ensinar? Vivemos em um período no qual a saúde mental transformou-se em pauta urgente e não é difícil de compreender o motivo. A sociedade do cansaço e da produtividade a qualquer custo valoriza mais um feed do Instagram impecável do que nossa própria sanidade. E me desculpem a organização do Roland Garros e meus colegas jornalistas, a atitude da tenista expõe uma série de abusos no mundo do esporte, que costumam ser ignorados com a desculpa de que mais vale um furo de reportagem. Isso precisa acabar. Por que não deixar um atleta responder às perguntas uma vez que ele estiver descansado e que toda aquela explosão de adrenalina tiver deixado seu corpo? Saúde mental importa!

 

Foto de destaque: Instagram

 

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